Uma nova era para o esperanto, de novo

tradução de A new age for Esperanto, again por Emerson Werneck

O esperanto foi declarado como morto repetidas vezes. Há boas razões para isso:

  1. A percepção de que a ideia do esperanto não faz sentido;
  2. A percepção de que a execução da ideia fracassou;
  3. A percepção de que o inglês assumiu o seu papel;
  4. A percepção da dificuldade de uma língua artificial;
  5. O fato de que a maioria das pessoas conhece alguém que o fala, e eles são idosos.

Os rumores sobre a morte do esperanto, no entanto, têm sido exagerados fortemente.

  1. Não é preciso pesquisar muito para encontrar problemas de comunicação onde quer que se vá;
  2. Basta que se experimente o esperanto ou que se examine a atividade da comunidade para que se veja que ele funciona;
  3. O número de pessoas que conseguem falar inglês, se mudou, foi para baixo (difícil de acreditar, eu sei. Há um viés de seleção muito forte agindo aqui);
  4. O esperanto é, na verdade, fácil de aprender para qualquer um, porque sua simplicidade não está apenas no vocabulário (que de fato é baseado principalmente em línguas europeias, mas pelas razões óbvias de que tais palavras estão em uso por todo o mundo, até na Ásia, e não há nada similar entre as línguas asiáticas);
  5. O fato de se ver pessoas que o falam em uma idade avançada, não é mais que um sinal de que as pessoas não desistem do esperanto ao longo da vida. Se essas pessoas idosas forem perguntadas, a maioria dirá que o aprendeu “na adolescência” (como eu, que o aprendi aos quinze), ou ao menos quando eram mais jovens. Também há idosos que começaram no esperanto mais tarde, mas geralmente esses não são conhecidos por isso em suas famílias, por razões óbvias.

Há, no entanto, vários períodos que podemos apontar que colocam o esperanto no mapa, e eles geralmente são vistos pelas pessoas como períodos em que o esperanto estava em questão.

  1. Entre 1887 e a 1a. Guerra Mundial, o esperanto teve sua primeira ascensão. Este período é caracterizado por lunáticos autênticos que eram loucos o suficiente para acreditar que uma língua artificial pode resolver os problemas do mundo. Neste período, o micropaís Amikejo foi fundado na então neutra Moresnet — apenas para ser entregue à Bélgica no fim da guerra.
  2. Basicamente todas as guerras colocaram o esperanto no segundo plano — as pessoas tinham outras coisas em mente -, mas elas tiveram um papel relevante, pois geralmente as pessoas têm amigos em ambos os lados da guerra. A guerra geralmente é bastante surreal para os esperantistas. Por exemplo, a questão da Crimeia deixa um gusto amargo com opiniões bem mais complicadas do que a maioria das pessoas temm sobre ela, e coloca tensão em algumas partes da comunidade.
  3. Da 1a à 2a Guerra Mundial, o esperanto foi associado à esperança pela Paz Mundial, e também associado ao fracasso de uma ideia tão importante.
  4. A 2a. Guerra Mundial e a Guerra Fria que a sucedeu estão hoje ligados, na comunidade esperantista, à perseguição ao esperanto. Hitler apontou para o esperanto como um complô judaico, e só recentemente tivemos acesso aos dados reais sobre a perseguição ao esperanto nos tempos de Stalin. Entretanto, há também memórias muito agradáveis daqueles tempos em que esperantistas cruzavam as fronteiras entre o oriente comunista e o ocidente capitalista por conta de eventos pelo esperanto.
  5. O esperanto tem sido associado a várias outras coisas, após a Segunda Grande Guerra. Os chineses associam o esperanto com os ideais de Mao; no Brasil, o esperanto está ligado ao espiritismo; na Holanda, artefatos ligados ao esperanto nas cabines telefônicas, cursos para os funcionários dos correios, e o curso de esperanto de Van Kooten e De Bie são vistos como representantes do que o esperanto tem sido, e para muitos outros países há comemorações para celebrar as recordações coletivas.
  6. Veio a internet, e os esperantistas foram os primeiros a tirar vantagens disso. Páginas de chat em esperanto estão presents desde o início; a Wikipédia em esperanto foi a quarta versão a ser criada, e agora só foi ultrapassada pelas línguas de grande porte; os cursos de esperanto por correspondência toranaram-se a primeira maneira de se aprender o idioma; e então cursos como o Kurso de Esperanto (“O curso brasileiro”) e o famoso sítio lernu.net asseguraram que o esperanto fosse basicamente a língua mais bem provisionada na rede para o estudo independente.

E agora um novo marco. Mais de 90 mil pessoas já se inscreveram no curso de esperanto do Duolingo, sem mostrar quaisquer sinais de desaceleração. Alguns ficam imaginando por que se deveria aprender o esperanto. Alguns tentam imaginar de onde vem o interesse. De fato, ele nunca esteve ausente.